Luanda e arredores… A cidade mais cara do Mundo

Quando se chega ao aeroporto de Luanda pela primeira vez, estamos longe de imaginar o que veremos cá fora.

Estradas (ditas “Via rápida ou auto-estrada”) cheias de lixo nas bermas, que não é recolhido há uns meses por falta de pagamento por parte do Governo; mulheres que, junto ao lixo, cozinham na brasa os mais variados alimentos, como o típico funge de mandioca, o preferido de muitos porque “enche” o estômago durante mais tempo, e onde quem passa, e decide parar para comer, contribui para que o caótico trânsito se transforme num ainda maior verdadeiro inferno.

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(foto retirada da net)

Na Via rápida não há regras de trânsito, o equivalente a três faixas de trânsito rapidamente se transforma em cinco, ou uma, mediante o numero de carros parados nas referidas bermas. Os peões atravessam apressados, pelo meio do trânsito, e o numero de atropelamentos é naturalmente assustador. E quando isso acontece, alguns dos corpos ficam ali, como se um animal se tratasse – desviem-se os automóveis até que alguém os vá recolher. O tempo que se passa no trânsito é inimaginável, poucos Kms transformam-se por vezes no numero de horas de uma viagem Porto-Lisboa, com a diferença de não sairmos do sítio, de nos tentarem vender o mais variado numero de bugigangas e respirarmos uma poluição que não lembra ao mais comum dos cidadãos do mundo civilizado. Os candongueiros (uma espécie de taxi-autocarro azul e branco, que habitualmente vão cheios como latas de sardinhas), são mais que muitos e param em qualquer lugar para deixar e recolher novos passageiros. A confusão provocada pelos mesmos é tanta que o melhor é dar-lhes sempre prioridade porque quer queiramos, quer não, eles mudam de faixa como se estivessem sozinhos na estrada. Alguns ainda pedem ajuda aos passageiros, para que vejam se podem passar, mas poucos são os que vi a terem o mínimo de cuidado.
Os automóveis, na maioria jipes com vidros esfumados, escondem quem por lá passa. Pode tratar-se de um pobre angolano ou de um Angolano de elite que, até aos moradores da Quinta da Marinha, provocariam inveja, dada a fortuna que têm nas mãos.

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Nesta via rápida, o fim da tarde é ainda mais dantesco, vemos os passos apressados de quem quer chegar aos perigosos bairros dos arredores de Luanda, antes da hora de ponta dos assaltos e violência gratuita entre os próprios angolanos.

Em qualquer cidade a que se chegue nos arredores de Luanda, ou até mesmo em Luanda (excepto nas zonas consideradas de intocáveis para manter as aparências), o que mais vemos é lixo. Lixo e os actuais  habitantes deste habitat, as ratazanas e ratos que se deliciam com os manjares espalhados um pouco por todo o lado.

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Na marginal e baía e na zona das embaixadas de Luanda, o cenário é o oposto. Zonas bonitas para tirar maravilhosas fotografias e filmagens para a telenovela da Única mulher por exemplo, mas onde nenhum automóvel está autorizado a parar. Assim como Talatona, a zona dos ricos, onde se situam a Escola portuguesa e o famoso Colégio São Francisco de Assis, em que quatro mil e 100 dólares da matrícula, 15 mil e 600 dólares pelas propinas anuais (cinco mil e 200 dólares por trimestre) e três mil dólares para os almoços e lanches, não são razões para diminuir a gigantesca lista de espera. Os critérios de seleção dos meninos são extremamente exigentes, e  convenhamos, o status dos pais é o mais importante. As crianças chegam de motorista e vestidas como estrelas de cinema, malas Louis Vuitton são algo que não se estranha em crianças em idade de colégio.

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Um pouco por todo o lado temos os restaurantes e zonas dos privilegiados, devidamente protegidas por homens armados até aos dentes, onde rapidamente se gastam 20 dólares por três cafés.

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Mas temos também a venda de refeições nos quintais das casas particulares, onde diga-se de passagem, por vezes come-se muito bem, como na Chicala onde comi o melhor Choco da minha vida. É tudo uma questão de não pensar nas condições de preparação da comida e não comer as saladas, e tudo tende a correr bem… Ou não, mas quem não está disposto a correr riscos não deve vir para um país como Angola. Porque para além dos cuidados com a alimentação, a febre amarela, febre tifóide e malária são ameaças constantes, com ou sem vacinas.
Restaurantes portugueses também os há, e bons, onde matamos saudades da comidinha do nosso país. Cozido à portuguesa foi um dos pratos que me fez regressar a Portugal por momentos, e questões relacionadas com higiene não me assombraram no restaurante onde fui.

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Os típicos mercados são do mais pitoresco que existe. Aqui sim, vive-se o que se experimenta em qualquer outro país africano que já visitei. É a lei do assédio aos “turistas” e a negociação dos preços a funcionar. Em fins de semana os preços inflacionam e durante a semana, quando os vendedores já não têm dinheiro, os preços baixam para quase um terço, dada é a necessidade de vender qualquer coisa.
O Mercado do peixe de Benfica foi certamente o que mais me impressionou. Junto ao mar, com peixe fresquíssimo, onde não vi mais ninguém que não Angolanos, e onde apetece comprar o peixe todo. Não fosse a quantidade de moscas que circundam o peixe, e creio que traria peixes como “recuerdos” (tal era a vontade de comprar), LOL. A visita não durou muito porque rapidamente se instalou confusão. Homens armados com paus e tudo o que servia de arma, atacavam alguém e só ouvia as peixeiras a dizerem “vão mata-lo”. Fomos aconselhados a sair e assim o fizemos.

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Luanda e arredores não são para meninos. A Vida humana não tem o valor a que estamos habituados. De um dia para o outro somos assaltados no mais imprevisível local e estamos confinados a locais com relativa segurança; fora daí, é a lei da selva, é um claro “proibido”. A polícia assusta mais do que dá uma sensação de segurança. A simples obrigatoriedade de andar com Passaporte e restante documentação legal, sob ameaça de se ir preso, não é de todo o que mais apetece num país destes. E aí não perdoam, parece que procuram algo para implicar.

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Quando chove, o cenário é ainda mais aventureiro. Podemos ficar atolados numa qualquer estrada de terra (que ainda são a maioria)…

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Mas curiosamente, e apesar de tudo, amei estas duas viagens que fiz num período tão curto. Amei o povo angolano que tive oportunidade de conhecer. Há de tudo naturalmente, mas a empatia por quem viveu em guerra até há 13 anos atrás, justifica uma grande parte do seu espirito de sobrevivência. O povo aqui não vive, sobrevive. E os ricos, bem, esses vivem com o melhor que existe no Mundo! Os jatos fazem-nos sair da realidade em qualquer altura e para qualquer destino onde encontrem as lojas de alta costura mais caras e selectivas.

Apesar de talvez estranharem, porque o clima é cada vez mais tenso (graças à falta de dinheiro e tensão social) estou ansiosa por lá voltar e conhecer o que dizem ser as maravilhas da Província.

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